O Grito

Procurei a saida, mas nao para sair daqui.

Procurei a saida para chegar ao mundo, pelo qual sentia

imensa nostalgia.

Procurava o futuro numa arqueologia as avessas,

pois o que escavei nao era um chao previamente habitado

sob o qual o passado estava ate entao enterrado.

Escavava meu proprio parto. E a retomada desta saida nao era das

entranhas da minha mae - agora so’ havia um grito ecoando pelo

corredor dos meus anos verdes, com a promessa de que nasci e de que

nao havia mais volta. Esse grito era meu primiro dialogo com o

mundo ao meu redor, e a promessa de um dia encontra-lo.

O Futuro e’ Tudo que por Mim ainda nao foi Aceso.

Luciana Francis, Homerton, Londres, 19 Fevereiro de 2014.

Quero Fazer um Filme

Seguram-me os olhos e admiro o que de bonito e estranho ha no mundo. Nao me contento com o que esta a frente, procuro tudo; as raizes, fissuras, entranhas, saidas. A bagunca de tudo me assusta um pouco mas me comforta muito. Os olhos que sao portas sem muro me levam sempre adiante, e o horizonte eu devoro pelas narinas, respirando montanhas. Foi assim que nasci, primeiro, olhando, depois ouvindo. E assim que comecei a escrever, coloquei em linhas os tantos horizontes ao quais almejo com os olhos e a esperanca. Ate que os pes se movem e quando ando, vejo mais. Mas sera que acompanho o mundo ou e’ o mundo que me acompanha?

Navego os dias, as noites, as horas da tarde que o relogio ignora, quando tudo parece ‘a deriva. Procuro nas coisas as proprias coisas e acho saidas. Observo raizes, fissuras, entranhas, as sinto, por dentro ha tantas destas benditas. E elas se mexem e se expandem como terremotos internos se ajustando ao parto da vida. Dias e dias, e noites e horas que o relogio ignora. Observo, ouco, escrevo — linhas horizontais atraves do branco da pagina. Estas sao as replicas do horizonte ao qual almejo com os olhos e a esperanca.